Paradoxais
 

 
Uma ousada tentativa de despretensão.
 
 
  Pequenas Misérias
Sleepwalking
 
 






Sexta-feira, Outubro 14, 2005
 
Rubinho pedala, pedala, Robinho!

Em meio ao materialismo americano, ao lúgubre ar britânico de ex-primeiro-lugar e aos retirantes do resto da Europa, que faço eu aqui? Ainda que houvesse argentinos neste lugar , talvez a estreita amizade assentada pela Guerra do Paraguai fosse facilmente apagada pelas garras do domínio econômico brasileiro ou, o que é muito mais importante e provável, pela rivalidade do futebol. Uma possível solução seria, como nosso Lula antes da "urucubaca", alinhar-me com os chineses, potência em ascensão. Mais adiante, para fechar o círculo dos B.R.I.C's, poderia buscar aliados na Índia e na Rússia, inspirado pela famosa máxima "All men are brothers" de Mahatma Ghandi ou na santíssima trindade, digo, Lenin, Stalin e Trotsky, que foram verdadeiros companheiros entre si. Assim, finalmente poderíamos preparar a invasão de algo um pouco maior que o Santiago Bernabeu e, aos brados, entoar nosso hino: "tá dominado, tá tudo dominado", saltando de cipó em cipó. Nesse mundo perfeito, ainda que a alguns governantes possa faltar um dedo, ninguém será privado do dedão. Só dessa forma far-se-á a justiça social: todos, sem distinção de cor, credo, sexo ou condição econômica, poderão usar havaianas.


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Terça-feira, Outubro 11, 2005
 
10/10/05

A gênese da solidão

Foi mais ou menos assim: deram-me de comer de um tal fruto e, em instantâneo deleite, provei, como Adão, da árvore do discernimento do bem e do mal, e pela primeira vez vergonha senti. Se ao menos eu tivesse uma Eva... Eu vi a verdade de Adão.

Em seguida, em instantânea mudança, começou a chover (como já era de se esperar). Ao ver o dilúvio pela janela, logo percebi: a vida é uma arca, tudo chove lá fora, e do lado de dentro só podes guardar alguns. Da verdade não brotou o bíblico arco-íris (aquele que aparece no céu sempre que Deus ali junta nuvens, com o intuito de lembrá-lo da aliança feita com Noé, o único então justo, que estabelecia que nunca mais exterminaria a humanidade com Suas torrentes). Mas e agora, cadê a justeza, Noé !? Eu vi a verdade de Noé.

Aí, num demorado segundo, que em verdade demorou mais ou menos cento e setenta e cinco anos, deram-me o filho que eu não podia ter. Eu vi a verdade de Abraão.

Ainda sem Eva, vi, no entanto, minha morena olhar para trás e virar uma estátua de sal. Sem prejuízo da costela tirada e do filho concedido, ao deitar-me com minha própria cria percebi o quanto estava sozinho neste mundo, e uma lágrima, única que só, escorreu. Eu vi a verdade de Ló.

Para trás não olhei, mas sim para o lado. Ocupei-me mais com o meu irmão do que deveria. Em vão competi. Foi aí que esqueci o quanto estava sozinho neste mundo. Através de Esaú, eu vi a mentira de Jacó. Mas de pronto acordei, vi Deus de frente e, a despeito, sobrevivi. Foi aí que me tornei Israel, pois vi Deus face-a-face e sobrevivi. Eu também vi a verdade de Jacó.

Vendo de frente Seu semblante, antecipei sete anos de fome, e pude me preparar. Sozinho, meu reino era o único que ainda possuía mantimentos, e todos nele os vinham comprar. Enchi-me de vil metal, para quê? Logo tornei-me escravo. Eu vi a verdade de José.

E, agora, cadê você com sua verdade, Moisés? Cadê você, liberdade!? - essa verdade, ainda não vi...


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Segunda-feira, Outubro 03, 2005
 
Marx morreu, e está enterrado a dois quarteirões.
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23/09/05

Carta a alguém sufocado pelo aquecedor dentro de um cubículo londrino
(ou Porque você é/sou eu)


Passados o velho e o moço, estava eu sobrevoando Paris. Bem acima das nuvens, já amanhecia. Enfim poderia abrir o jornal, eu que não havia dormido. Tudo, em minha vida, sempre aponta para um desfecho trágico, que quase nunca se verifica. Para ilustrar, a manchete principal do Le Figaro de dezesseis de setembro versava sobre um acidente aéreo em Toronto. As linhas subseqüentes explicavam a desavença entre o co-piloto, que queria levantar o trem-de-pouso e decolar novamente após a aterrissagem imperfeita, e o piloto, que acabou optando, ao contrário, por ligar o reverse. Resultado: pista pequena demais para a manobra, centenas de mortos, os dois inclusive. Li a reportagem exatamente durante minha aterragem. Mas, against all odds, suavemente desci no Charles de Gaulle, como a garantir-me que sempre que eu tentar adivinhar o futuro, devo recordar-me que uma kilt cai-me bem melhor que uma saia rodada de Mãe Diná.

No meu mundo agora sem MSN, passei a ler outras coisas. Se bem que os livros não supram minha sempre presente carência de pessoas, tenho lido algumas coisas interessantes. Os paradoxos sempre me intrigaram, tanto que dei ao blog o nome que dei. Há algum tempo, esbocei uma idéia de que os opostos seriam, em verdade, idênticos. Algumas alegorias; como a luz intensa que ofusca; a densidade infinita (ausência de espaço entre as partículas) e o vácuo absoluto ( espaço infinito entre as mesmas), que na verdade parecem equivaler-se; servem para aludir à idéia central de identidade entre os extremos. Assim, ao ler os seguintes trechos, um sorriso irônico entreaberto uniu-se aos olhos pasmos de criança:

" Opondo-se à lógica aristotélica está a que podemos chamar de lógica paradoxal, que considera que A e não-A não se excluem mutuamente como predicados de X. A lógica paradoxal predominava no pensamento chinês e indiano, na filosofia de Heráclito e, posteriormente, com o nome de dialética, tornou-se a filosofia de Hegel e Marx. O princípio geral da lógica paradoxal foi claramente enunciado por Lao-tsé: ´As palavras que são estritamente verdadeiras parecem ser paradoxais` ... Para Mestre Eckhart, ´o Um Divino é a negação das negações, e uma negativa das negativas... Toda criatura contém uma negação: um nega que é o outro`. Para ele, é tão-só uma conseqüencia Deus tornar-se o ´Nada Absoluto`, da mesma forma que a realidade essencial é o En Sof (Sem Fim) da Cabala. " (1)

Para Fromm, o amor a Deus, quando maduro, representaria a sensação de unidade com Ele, um estágio mais avançado do que a concepção de um deus-pai (o que cria regras, cobra, e pune) ou de uma deusa-mãe (a que me protege e me ama incondicionalmente, apesar da minha fraqueza).

Penso que a idéia de Amor e de Deus equiparam-se, na medida em que o Amor, enquanto experiência de união com o outro, corresponde a reconhecer que o outro é Deus, assim como eu mesmo. Em verdade, tanto Deus quanto o Amor significam transcendência, isto é, a superação da linha limítrofe que parece - e somente parece - existir entre o subjetivo e o objetivo; opostos, em verdade, idênticos.


(1) A arte de amar - Erich Fromm.



25/09/05

Domingo. Resumo do meu dia: liguei para casa, fui à Speaker's Corner, respondi a alguns e-mails e li um pouco do Walker & Walker's English Legal System. Na "Esquina dos Oradores", um canto do Hyde Park onde se celebra desde 1872 a liberdade de expressão, assisti aos discursos dos mesmos palestino e jamacaino de um ano atrás. O nigeriano questionador, que defendia a causa americana, também era o mesmíssimo. Até algumas piadas repetiram-se, fora o que me faltou à memória. É incrível como um discurso pode nos deixar estupefaticamente bem-impressionados ao primeiro contato e, na segunda vez em que o escutamos, soar extremamente artificial. Eu, inclusive, sinto-me por vezes repetitivo... Ao menos, isso não ocorre com o CD dos Los Hermanos.

01/10/05

Hangover

Chegou outubro, mas foi agosto o mês das bruxas. De frente para o espelho, a estação muda rapidamente. Já é outono, e as folhas mudam de cor. Não que o Big Ben dite meu ritmo, mas os passos são bem mais largos pelo underground. A educação também é desconstruída - spoilt..., ela me sussurrou.

A insônia resolve-se com duas latas de Stella, mas a solidão não. Faceira, nega todas as outras, e faltam-me palavras para agradecer-lhe por isso. Certo amigo disse-me, uma vez, que era ilusão, e que o "outro" sempre seria melhor. Mas aqui não é isso que ocorre. O alarme de incêndio sobre minha cabeça é insensível ao cheiro bucólico que paira no ar. De todo modo, a garoa que insiste em aparecer todos os dias nesta cidade apagaria qualquer espécie de chama, não há porquê para alarmes. Aí sim, eu faria um desejo, próprio do sopro à vela. O santo não há de ficar descontente pelo simples apagar, pois bem sabe que a oferenda é muito mais grandiosa. Assim, de olhos fechados, com máxima força, ao extinguir-se a chama da vida, desejarei um pouco de paz. Aí, finalmente, desejo e realização não mais distinguir-se-ão, sonho e matéria unos no último pensamento, eu e você finalmente seremos, sem ser, nós.
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