Da pedofilia
Dormi com a infância e acordei com a liberdade. Em outros tempos, diria que foi o contrário. Afinal, que menino passaria incólume, sem ter de dar entrevistas de rosto embaçado e voz distorcida e chorosa, ao ser privado, de um só golpe, de sua intimidade e ingenuidade? É verdade que na vigésima quinta vez não poderia bem ter sido isso o ocorrido, a despeito da obviedade do despudor. Foi assim que, nessa minha primeira vez (permita-me contar com meus dedos) e vigésima sei-lá-quantas (para o
expert), a violência me libertou.
Acordei livre dos arquivos, malotes e prazos que a vida racional bem traduz. Se bem que a curiosidade, ávida por aprender, nunca haja me abandonado, a impossibilidade de absorver o
unreasonable capaz de superar as limitações cognitivas kantianas, único conhecimento de verdade (justamente por não ser conhecimento), isso sim me afastou dos meus dias de moleque.
A liberdade, no entanto, tornou-se pesada pela manhã. E agora, o que faz um menino de três anos, de olhos brilhantes e arregalados, num escritório de advocacia? Que quer ele ao juntar tantos livros sem nada para colorir? Porque chegaste logo agora com essa caixa de lápis-de-cor (e acaso não era exatamente isso que eu queria?)?. Olhos febris, dia demorado para passar, e a velha dor na nuca. Sintomas de amor ou de tristeza?