Eterna juventude
Sonhos são pó - alguém um dia lhe disse, e ele cheirou-os de uma só vez.
Se o sucesso é inebriante, se havia que sorvê-lo o mais depressa possível, na esperança de mergulhar em torpor antes de seus efeitos colaterais sabidos: barriga, careca, impotência, pensão alimentícia! Ah, carreira que é carreira, ah, essa se cheira inteira, sem titubear.
A mulher da sua vida? A que voando se foi ou a que ficou, no porto, acenando, pra trás? Bem, agora já tanto faz, depois de forte inalada, ali já não havia nada. Para o bem da verdade, lembre-se que foi terna a cheirada, daquelas apaixonadas... mas cheiro se perde no ar!
Pra conhecer o mundo, é fato notório e inquestionável que se tem de viajar. Inalou, primeiro, as pirâmides do Egito (nada mais empoeirado...), depois a Acrópole (nada mais branquinho!), em seguida Manhattan (nada mais viciante). Com três tapinhas colocou pra dentro o apogeu da religião, da filosofia e da ignorância, misturadas tal sal e areia.
Por último, a paz espiritual. Como e onde cheirá-la? Depois de muito farejar, nesses dias corridos e irracionais, não encontrou nem sinal dela no ar. Teria ele que injetá-la? Nem precisava. Depois de 75 gramas de oásis, a febre, que há muito já havia tomado conta de seu corpo pequenino, extenuou-o: no chão caiu desvanecido.
E ficou a lição para a alma: overdose - e só, é o que acalma.