A vida ao revés
Acordei curvado, voz rouca, cabelos brancos, dentes amarelados. Tinha dois filhos e quatros netos, dois deles homens formados, um desdoutorando em Letras e o outro festejado advogado. Eu ainda tinha setenta e oito anos pela frente (hoje aprendi a contar ao contrário).
Nas primeiras duas décadas, eram grandes e felizes reuniões de família. Triste era pensar que um a um deles desapareceria antes de mim. Os bebês, tão ternos que nem gosto de lembrar, quase já não mais lá.
Aos poucos, fui recuperando o vigor sexual. Pena que Freud não se aplicava ao meu mundo. O instinto sexual, instrumento de preservação da espécie cronologicamente inversa, em nosso caso, a despeito do prazer, só levaria à extinção dos seres amados.
As rugas atenuando-se, o viço batendo à porta, o cabelo começando a crescer e escurecer. Como era bom desfazer as escolhas! Abrir, todos os dias, leques de oportunidade. Ironicamente, desatar nós era também afrouxar as velas. Perder o vento e o rumo recebidos já prontos, em busca da inocência completa. Idéia tão tentadora quanto atordoante. De qualquer jeito, inescapável.
No meu mundo, o passamento, em vez de amenizar a crueza da realidade vivida, tinha papel oposto. Foi assim que descobri, de sopetão, ao ir deixá-lo num orfanato, que um de meus filhos era adotivo. E logo o mais amado, não poderia acompanhá-lo na primeira infância...
Descasei, e veio o fulgor da juventude. O namoro, a paixão ardente, a incerteza do amor da minha menina. E o que mais apertava meu coração: a certeza de que o dia em que ela desapareceria se aproximava. Ao menos, o valor que eu a ela atribuía também ia diminuindo com a desconstrução da memória, como a preparar-me para o primeiro olhar que cruzamos, a partir do qual eu nunca mais tornaria a vê-la.
Já meus pais chegaram meio do nada, assim, através de um acidente de carro. Grata surpresa. Ao menos ganhava o porto-seguro da primeira família, que talvez compensaria tantas perdas.
A infância e os desestudos já raiavam no horizonte: a vida a ficar cada vez mais divertida, mais tempo dedicado à brincadeira e menos preocupação com o passado. É verdade que ter hora pra dormir às vezes me chateava.
Desaprendi, divertidamente, a escrever, falar e andar. Aproximava-se o desfecho da minha ópera, o dia em que, tal Édipo, entraria no ventre da minha mãe e tornar-me-ia rei coroado pelo desaparecimento da concepção.
Solilóquio transcendental (a Aires,
in memoriam)
- E aí, parceiro, aonde estamos indo?
- Você eu não sei; eu vou descer no ponto do parque, se não pegar no sono no caminho e perder a hora, é claro.
- Não deixaria isso acontecer.
- Mas, afinal, quem é você?
- E isso acaso importa ? Estamos num ônibus, não teremos tempo de construir sólida amizade. E esse parque é ali na esquina.
- É verdade.
...
- Que dia bonito, não?
- É sim, mas já chegou minha hora de descer... E você, amigo, continuará aí por muito tempo?
- Não sei. O ônibus é circular.