A minha canção do exílio
Quanto mais próximo estou do centro da Terra, mais percebo que a gravidade, em vez de a ele me atrair, como sugeriu algum dos velhos sábios (reza a lenda inspirado por uma maçã podre, o que não me admira nenhum pouco), repele-me abruptamente a outros caminhos, conducentes a alturas remotas, galáxias distantes onde as leis da física sejam outras. Não peço que concordes com a minha gravidade, talvez a tenha forjado; porque de lei, sistema e segurança, eu careço sim, mas não dessas daqui.
Para onde eles vão (todos os dias, que a pressão atmosférica os curva e apequena), está uma infernal temperatura, um caldeirão de mesquinharia tão insuportável, que por vezes explode em cólera e resolve chorar de tristeza, transpirar de susto ou golfar o que há muito estava engasgado: a pequenez da natureza humana. Manda a boa prudência que não nos deixemos enganar por um extinto Vesúvio ao fundo da linda Baía de Nápoles. A beleza da Costa Malfitana não pode esconder, com seus cenários encantadores, o que sempre foi, muito antes dos romanos, uma terra de homens vis e ladrões.
Outro dia, ao subir o Everest, o ar arrefecendo-se só me dava uma certeza: antes morrer jovem, bem próximo ao céu, que velho, cego e de bengala na casa de repouso dos salteadores.